Mate(r)mática
- Elis Barbosa
- há 9 horas
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Existe a matemática, e existem as mate(r)máticas das mulheres que, sempre num viés mais compulsório que não, maternam.
Matemática, matéria de estudo, campo de saber, teorias e abstrações, aplicáveis ou não, existe. Mate(r)máticas das mulheres, o impossível que faz a gira ser verbo, também. Ambas de matéria tão sutil quanto imapctante seus resultados.
Vai chegar atrasado ao Karatê.
Vou?
Vai.
Que horas são? Faltam 5 min, daqui pra lá a gente gasta dez. Vamos chegar 5 min atrasados.
Mas a gente ainda não chegou, não estamos atrasados.
Certo, mas faz as contas, estaremos atrasados quando chegarmos lá.
Mas como, se a gente ainda não chegou?
De fato.
Então...
Paradoxo posto. Como explicar a alguém cuja capacidade de abstração ainda não consegue suportar algo tão inconciliável à experiência de falar do futuro no presente, lamentando um passado que ainda não aconteceu?
Quantas operações mentais e psíquicas vivemos para o manejo dos tempos? Vivemos dimensões temporais distintas, há o tempo cronológico, do relógio, do calendário, e o lógico que pinga ou jorra dentro dessa unidade de sentir e de forjar sentido que é uma pessoa humana.
Como pisar o chão de um pensamento dizendo de um atraso, ou seja, de um tempo que ultrapassa certo futuro que ainda não aconteceu?
Será que a conta não fecha por que está sendo feita em dimensões temporais distintas? Quando uma mulher, nos dias de hoje, está no momento presente? Quando se ocupa de uma tarefa por vez?
A cultura normatiza o impossível, mas há impossíveis e impossíveis, dependo de quem seja na fila do pão que o diabo amassa por aqui, o lugar é mais ou menos estreito. Às mulheres em geral, mais cruelmente às mulheres racializadas/não brancas é ofertada escolha de uma única opção, sobreviver. Responsabilizadas por todos os trabalhos de cuidado e manutenção da vida material e subjetiva a ganho patrimonial zero.
A justificativa pra ser ela e mais ninguém? A contingência de ser corpo que pari e amamenta. Para que fiquemos todos satisfeitos, fica determinado que será de lá, exclusivamente dessa experiência, que elas retirarão sua própria realização e bem estar. Para tanto, é necessário renúnciar qualquer outra potência que habite o ser vivente cujo corpo biológico se identifica como o de mulher (com vagina). Produção de saberes, propriedade sobre bens e/ou experiências fora do território doméstico, “não vão te fazer bem”, “são pra mulheres de pior condição”, enfim “é a porta para liberdades mais pesadas”.
Querendo mais trabalho, escolhe uma frente dessas aí, à vontade. Só não atrasa pro Karatê do menino. E ainda nem comecei a contar. Matemática e mate(r)mática não contam igualmente a mesma história, para mães e não mães, as mesmas vinte e quatro horas não duram igual. Tempos dentro do tempo. O meu, o da escola, do pediatra, do mercado, do trabalho, do remédio, dos grupos, dos aniversários, da consulta, do Karatê, da mensagem que eu queria tanto responder. Antecipando o inacontecido.
Falta tempo de pertença. Pertença de si. Foi quem que inventou caber na vida de uma mulher, o tempo de tantos outros? Familiares, mas outros.
A conta sempre fecha, apertada, apertando pra quem recebe a conta, nunca pra quem a faz.


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