a vida (in)visível
- Elis Barbosa
- 8 de jun. de 2024
- 6 min de leitura
CineDebate nosso, atividade gratuita e nascida do desejo de estendermos os estudos de segunda-feira “dos corpos gravídicos à função materna”, à arte. Como funciona?

Encontramos todo mês uma vez, online, no dia e hora marcados, você pega esse link aqui, copia, cola, ocupa e participa. Ficou com alguma dúvida, me chama no privado ou no whatsapp.
tem mais texto sobre o filme lá no blog, passa lá e vamos trocar. tá tudo no “link da bio”.
inspirado no livro homônimo, de Martha Batalha, ambos são compilados desdobráveis ao infinito dos pontos altos da vida de uma não pessoa, a que convencionamos chamar mulher. porém não se trata do que elas pontuam ou demandariam, não é pela perspectiva delas, somos nós de novo passivamente observando a família fazer seu papel enquanto representante micro do controle do estado sobre a vida das mulheres. de todas, até ficarem sem nada.
e digo nós e digo de novo, porque não foi só dessa vez que assisti totalmente impotente ao impossível oferecido às que, querendo ou não vão engravidar, querendo ou não vão parir, querendo ou não vão maternar. anos 40-50, é por aí que coisa ia.
a(s) protagonista(s) são duas mulheres brancas de classe média, vivendo numa Santa Teresa, bairro antigo na cidade do Rio de Janeiro, que até hoje mantém sua estrutura e aparência metamórfica, uma natureza afrontosa de tão exuberante marcada pela ocupação humana, óbvio, desordenada e caótica. bairro feminino. as pessoas pretas nesse filme ocupam os lugares que o racismo a elas reservou, junto com elas as pessoas brancas que não se comportam como tais.
os marca-dores sociais todos ali pra gente se ver direitinho e tentar tirar mácula infernal no meio das nossas caras racistas.
a fotografia, a trilha sonora, as dores representadas para fora ou travadas na cara de Eu/rídice que, depois que a irmã se vai só sorri quando louca.
tão pouco é um ponto de vista que defenda os homens, embora não os brutalize, apesar de toda dor envolvida por trabalhar pelo e para o outro sem ser causa de desejo.
os pontos, determinados altos, da vida de uma mulher quem diz quais são é a sociedade. a resposta certa? grata pela parte que me toca sem consentimento ou constrangimento. sequer toma conhecimento de nada que não seja para a sustentação do que está estabelecido. homens não sabem (iam) nada sobre suas próprias demandas mais primeiras, nem como atendê-las minimamente, podem tudo, exaurem o que temem. ora, sem saber de si como poderia acessar aquela ali que nem é outro humano, outra pessoa, mas mulher. se fosse outro, mas era outra. o que poderia um homem saber sobre uma mulher, sobre a sua mulher. Sobra nada.
sem saber de si, como saberia sobre qualquer outr@, para quem toda mulher é uma qualquer.
as mais limpas ficam loucas. tem as outras que raramente chegam a umas, ficam porque não morrem, apenas. há penas, mas não parece que compete aos homens cumpri-las. Antenor brinca de bilboquê, pede atenção porque não há quem (a) queira dar à Antenor. Ah, Antenor! Ele tenta, faz a parte que disseram que era dele. Não trai, não bate, provê, cuida da família dela. Mas apaixonado, perde a linha quando se escancara o quanto Dicinha está de passagem, não fica, não se interessa por nada que é dele ou da família.
Eu/rídice é pianista, vive no mundo que cria apra si com os próprios dedos,e fico pensando naquela referências aos DJs quando falamos na masturbação feminina. deve ter a ver. a música transporta, faz Eu/rídice desaparecer de onde seu desejo corre. quando a música filtra o ar irrespirável do desamor as irmãs se encontram de novo entre os sons da água que corre livre por onde a vida vai picando trilha para gente seguir sem rumo a cumprir destino de desejo, não de obediência. tem uma coisa nesse filme que me tocou tanto, a insubordinação de todas as mulheres. a resistência despatriada diasporizada soberba e absoluta das mulheres negras. o ódio ressentido do que era subtraído em privilégio para quem já tinha muitos diante das mulheres negras.
rico, o filme é um álbum de memórias ainda atualizadas pela repetição das violências contra as mulheres. patrimonial, sexual, obstétrica, moral, uma destituição de humanidade, mas com a inteligência preservada. o corpo fica dentro de casa, da fábrica, do beco, do carro, do quarto sujo dividido com outra mulher aprisionada, enquanto a inteligência, mais fina do que nunca, assiste tudo o que suporta até surtar.
Guida, a mAna amada, o lugar onde o afeto corria e escorria, fica presa com o filho no Brasil porque para sair do Brasil com sua criança, a que ela cria e sustenta, precisa da autorização do pai. Mas que pai, moço? O menino não tem pai. Sou eu quem cria. Sinto muito, não é não. Errado não está, tão logo as mulheres se mobilizam coisas passam a deixar de ser e os maiores prejudicados são os homens e as outras pessoas que, de alguma forma, elegeram ganhos secundários para replicar lógicas e comportamentos misóginos.
a prisão de Eu/rídice tem as grades de ouro, vista privilegiada para o centro da cidade do rio de janeiro. ainda pode tocar seu piano. vive se esquivando sem querer das tarefas que lhe cabem enquanto rainha do lar. a cena icônica da ceia de natal em que todos esperam que ela sirva à mesa mas como é o primeiro natal sem a mãe não tinha dado tempo ainda de Eu/rídice herdar o que nunca quis, mudar de posto. era a promoção da época, a mãe ou a avó morriam às mulheres seguintes a missão de servir o prato de todos. o filme faz sentir, me deu um sustinho de eu, como Eu/rídice, demorar a entender o que havia pausado a cena.
quando ela faz o movimento, meu espanto também faz. minha nossa, eles ficariam ali para sempre se ela não os tivesse servido? quem serve a todos é a última a ser servida. imagina o que era destinado à quem sobrava o quarto de empregadas.
Das Dores, a empregada doméstica de Eu/rídice, não aparece no filme trazendo sua maternidade de filhos acorrentados aos pés da cama durante o dia para que ela pudesse bater os tapetes da casa da patroa, como no livro. Dicinha também não mostra sua face racista catarseando suas próprias dores sobre a que já se chama Das Dores. senti falta dessa ambivalência mais marcada. Quem comparece como empregada doméstica é Zélia, uma versão muito bem construída de mulher experiente, uma referência de mais velha colonizada, mas presente como uma mãe preta seria.
Eu/rídice só quer tocar com as mãos, através do piano, tempos em que as mulheres que se amam pudessem viver seu gozo outro em paz. Antenor quer que ela o queira, porém.
o patriarcado não tem suporte para se sustentar sobre essa base, de a vida estar resumida à representações de um “ter ou não ter?” falo, falei? e quando digo patriarcado já não falo apenas dos homens, mas de todas as pessoas que replicam e vigiam para garantir o controle sobre a alegria das mulheres.
nesse filme os homens atrapalham as mulheres, notei mais os homens no filme, não me lembrava de todos eles no livro. felicíssima adaptação, coloca o dedo bem no apoio mútuo masculino, na cumplicidade deles para que nada saia do controle. funciona. para Dicinha, será preciso passar por uma internação. sabe como é. sabemos. se a fantasia cair, cai tudo.
Eu/rídice deixou cair. se deixou cair para que pudesse, de alguma forma, levantar melhor, mais Dicinha, menos cheia de eus e índices, depois de tanto queria saber mais nada de nada, que a vida sem a sua razão era e ela não morria.
não tinha a música, não tinha guida. não amava nem era amada. o que a maternidade tem a ver com isso? nada, importa dizer, mas é papo pra outro texto.
sem música, sem guida.
lembra do caleidoscópio? lembra? adoro esse brinquedo, é de olhar até não divisar mais se o que vê está fora ou dentro, esse filme tem a delicadeza imensa de fazer ver, desmentindo o significado do adjetivo que dão à vida: invisível. travessura dessas com nome, não consigo nem dormir.
um filme politicamente correto dentro do que lhe cabe, honesto com a subjetividade de seu tempo e mostra, para essa que lhes escreve, um close frontal das partes de Antenor, lembra dele? que partes? escolhe. intumescido, pasme. nunca tinha visto assim num filme brasileiro, premiado, com a Fernanda Montenegro. e fiquei pensando que a vagina sempre foi objeto de vitrine, mas o pênis ficou protegido dessa exposição, do que será que isso os protege? a minha geração só acessava essas imagens se consumindo pornô, foi diferente pra você?
outra inovação, ao menos para mim enquanto espectadora, está na explosão de violência bem sucedida de Eu/rídice contra o pai quando é informada do suposto falecimento da irmã. ela bate com todo ódio que aquele acesso de lucidez lhe traz ao descobrir que ela seria sempre a última a saber. ele não revida, Antenor a contém, mas ali, nunca mais ninguém lhe teria como já havia sido um dia.
para quem se fez nessa explosão de cacos, todo fragmento pode ser pedaço. conheço tudo isso aqui, como se sempre tivesse sido (d)ali. as irmãs se ama, desejam, buscam e desencontram a vida “inteira juntas”. não há garantias ou certezas, talvez algumas histórias contadas, outras caladas, mas todas elas sentidas e vividas como tem que ser, pra valer. quem não viu, vá ver. e se puder, volta pra comentar.
abraço,
elis/angela


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